Vereadores na rede


As redes sociais têm sido o espaço de vários movimentos e protestos políticos. A utilização da internet com esse fim não é novidade e uma discussão sobre esse uso pela população de Belo Horizonte já foi iniciada aqui (link).

Apenas para relembrar, uma sucessão de acontecimentos ligados a problemas de administração provocaram a reação da população e o movimento mais expressivo teve início contra o prefeito de Belo Horizonte: #foraLacerda. O prefeito, Márcio Lacerda (PSB), foi alvo de críticas e protestos, não apenas virtuais, mas também nas ruas de BH.

No final do ano passado, os vereadores causaram ainda mais indignação ao aprovarem na Câmara um Projeto de Lei que aumentava em 61,8% o salário dos parlamentares. Rapidamente, os protestos se espalharam pelas redes sociais junto ao movimento #vetaLacerda, uma vez que o PL precisaria passar pelo aprovação do prefeito. O aumento foi vetado pelo Executivo e os vereadores desistiram, após muita pressão popular.

Imagem que circula no Facebook em protesto ao escândalo das "coxinhas"

Aliado a isso, alguns vereadores ainda sofreram várias denúncias. Talvez a mais significativa delas tenha sido a que ficou conhecida como “As coxinhas de Léo Burguês”. O vereador e presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH) teria dado uma justificativa cômica para receber a verba indenizatória, ele apresentou R$62 mil em notas fiscais de gastos com lanches no estabelecimento de sua madrasta. A denúncia rendeu inúmeros protestos nas redes sociais e até uma marchinha de carnaval: “Na coxinha da madrasta” (link).

Os vereadores de BH parecem ter se assustado com tantas repercussões nas redes sociais e não conseguem lidar com a situação. As sucessivas exposições negativas na internet e a dificuldade em monitorar e, até mesmo, rebater as críticas motivou a criação da Coordenadoria Adjunta de Redes Sociais, por Léo Burguês (PSDB).

A medida foi tomada “às pressas” e o anúncio feito no sábado de carnaval. Por isso, não há muitas explicações sobre a coordenadoria como, por exemplo, a vinculação dos cargos. De acordo com o decreto, basicamente, ao novo setor caberá a função de comunicação virtual da presidência da Câmara, acompanhar as postagens relacionadas à Casa e, também, ser um canal de contato com a imprensa. Diante dos acontecimentos não se pode negar que, em resumo, a função será combater e neutralizar as críticas e os movimentos contrários à CMBH. Muito oportuna a medida em ano eleitoral, especialmente com mais um movimento que se espalhou pelas redes sociais, principalmente no Facebook, que incentiva o eleitor a não reeleger os vereadores, o que promoveria uma renovação da Casa.

Mas muito além de ser uma importante ferramenta de marketing no cenário eleitoral, a criação da Coordenadoria de Redes Sociais também vai atuar em um monitoramento contínuo da imagem da Casa e de seus representantes na internet. Diante de tantos acontecimentos, pode-se dizer até que foi uma preocupação tardia, pois foi preciso um grande movimento contra o aumento do salário dos vereadores e a exposição excessiva de Léo Burguês para que os parlamentares se sentissem realmente ameaçados.

De qualquer forma, a situação apenas comprova a importância da internet na política, tanto para os representados quanto para os representantes que precisam administrar sua imagem.

É importante lembrar que a Câmara não está inovando, pois a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) fez um investimento considerável nesse sentido. Dessa forma, ela consegue trabalhar estrategicamente a promoção de sua imagem positiva e propõe, também, a comunicação com segmentos organizados da sociedade civil.

 

Referências

ANASTASIA, Fátima. Transformando o legislativo: A experiência da Assembléia Legislativa de Minas Gerais. In: SANTOS, Fabiano (org.) O Poder Legislativo nos Estados: diversidade e convergência. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2001.

CASTRO, Maria Ceres Pimenta Spínola. Na tessitura da cena, a vida. Comunicação, sociabilidade e política. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997.

 

Érica Anita é Mestre em Comunicação Social – pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Atualmente, é pesquisadora do Grupo “Opinião Pública, Marketing Político e Comportamento Eleitoral”, sediado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).




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