Pesquisador que só ‘Lattes’ não ‘morde’ II – ampliando o debate

Share on Facebook
Bookmark this on Delicious
Share on StumbleUpon

Trago este texto como uma espécie de complementação do meu post de duas semanas atrás (Pesquisador que só ‘Lattes’ não ‘morde’), partindo dos pertinentes comentários feitos pelas mais variadas pessoas, da academia e das calçadas. Alguns, naturalmente, se identificaram prontamente com as críticas lançadas; outros, também naturalmente, as julgaram demasiado exageradas ou mesmo vazias. Independente da posição (em última instância, ideológica) de cada um que leu o texto, gostaria de considerar alguns dos pontos e contrapontos colocados pelos comentadores – tanto para esclarecer algumas das minhas ideias que eventualmente não tenham ficado tão claras quanto para incorporar as dos que comentaram. E, para isso, gostaria de pedir licença aos que contribuíram com a discussão para citá-los quando necessário ao longo do texto. Meu objetivo é, acima de tudo, valorizar e ampliar o debate.

Primeiro, gostaria de aproveitar um erro de digitação do texto anterior – o que deveria ser ‘discussões elitizadas’ acabou inadvertidamente virando ‘discussões etilizadas’, o que seguramente fez da frase algo muito mais provocador do que minha pretensão original – para aprofundar um pouco mais o que penso sobre isso. Para tanto, replicarei a resposta que escrevi a Caru Schwingel quando ele me questionou, por email, se a expressão tinha sido utilizada deliberadamente – apesar de que, quando lhe respondi, ainda não tinha percebido que o questionamento era sobre a palavra ‘etilizada’, e não ‘elitizada’; a mesma dúvida que tinha sido levantada por Leonardo no blog e da qual só depois me dei conta. (Apesar disso, vejo agora que ‘etilizada’ não seria um termo tão mal assim; não para sugerir que as discussões são ‘embriagadas’, ‘insanas’, mas para falar da sua volatilidade, para dizer o quão rapidamente elas no geral evaporam: muito antes de chegar às ‘calçadas’). Mas vamos ao que escrevi a Caru sobre essa tal elitização acadêmica:

E quanto às ‘discussões extremamente elitizadas, fechadas em si mesmas’, sim, utilizo a expressão propositadamente, num tom provocador para que de alguma forma nos esforcemos ao máximo para levar nossas pesquisas às ‘calçadas’. Não que eu tenha a fórmula de como fazer isso exatamente, mas de alguma maneira acredito que isso seja, além de necessário, possível. E quando eu falo ‘elitizada’, me refiro a muitos aspectos: linguagem, abordagem, espaços de discussão; quanto ao ‘fechadas em si mesmas’, me refiro mais especificamente ao alcance (teórico e principalmente prático). Ou seja, de que adianta publicar tantos artigos, se, quando lidos, o serão pelas mesmas pessoas num mesmo ambiente limitado? Não seria o caso, de repente, de investir mais na qualidade (com menos quantidade, naturalmente) e ‘trabalhar’ esses artigos mais intensamente, tanto discutindo no ambiente acadêmico quanto fazendo um esforço para extrapolar as quatro paredes das salas dos congressos?

Enfim, são só inquietações muito pessoais que eu tenho e que, sinceramente, em várias ocasiões me fazem questionar a ‘razão’, o ‘porquê’, a real ‘validade’, em última instância, daquilo que escrevo e eventualmente acabo publicando dentro desse esquema. Mais do que ver meu Lattes cheio de estrelinhas, confesso que fico muito mais satisfeito quando algo que escrevo gera algum tipo de discussão, de repercussão, como o caso desse texto sobre o Lattes especificamente. E o mais interessante é que nesse caso várias pessoas que já se manifestaram sobre esse artigo nem sequer fazem parte da academia – ou por ‘desgosto’, ou porque nunca teve interesse ou afinidade, ou por qualquer outro motivo –, o que me deixa ainda mais satisfeito. É absolutamente importante e produtivo ouvir essas pessoas de fora e manter esse diálogo sempre aberto pra que nós, acadêmicos, profissionais que estão ‘pensando’ e ‘interpretando’ o mundo o tempo todo, possamos contribuir cada vez mais para esse mundo – num sentido mais prático mesmo. Em suma, minha defesa é que extrapolemos essa arrogância (muito comum, se bem que às vezes ‘enrustida’) de que acadêmico só fala com/para acadêmico e ponto final, como já cheguei ouvir doutores dizendo abertamente que só ‘dialogam’ com doutores, que só leem textos de outros doutores. É esse o tipo de academia que a gente quer?”.

Enfim, acredito muito nessa necessidade de a academia se abrir e se democratizar cada vez mais. É claro que os ‘títulos’ devem ser valorizados e respeitados, não sou contra isso, de modo algum. No entanto, o que eles não podem é, em vez de ajudar a ‘abrir’ a cabeça do pesquisador para o mundo, fechá-la dentro do seu próprio ego. Além disso, outra coisa que me intriga bastante – e que entra mais uma vez na questão do ‘caráter’, como bem colocou Rafael Sampaio – é o fato de muitos pesquisadores estarem preocupados exclusivamente com o ‘título’ que receberão após concluir sua pesquisa de mestrado ou de doutorado, por exemplo – para enfim poder estampá-lo no Lattes e se colocar numa melhor posição no mercado –, e não com a contribuição efetiva que a sua pesquisa poderá ter para qualquer esfera da sociedade. Outro dia mesmo fiquei bastante assustado ao conhecer uma doutoranda – que já atua como professora numa universidade! – que estava procurando ‘alguém’ para poder fazer dois ou três capítulos teóricos da sua tese. Parece até piada, mas infelizmente não é.

Em suma, é essa paranoia por títulos e números que mecaniza o nosso sistema e faz com que formemos ‘doutores’ medíocres, da mesma forma que muitas vezes – normalmente por questões ideológicas, se bem que muitas vezes preferimos usar o termo ‘afinidade de pesquisa’ – excluamos potenciais excelentes pesquisadores dos processos de seleção – como já ouvi vários relatos (de bastidores ou não) que só confirmam essa triste realidade. É isso, por exemplo, que faz com que Saulo Coelho, Luiz Paulo, Maluh Bastos e Ivan, cada um com seu motivo particular, se desencantem com a academia. E é também o que faz com que o Prof. João Batista realize pesquisas sobre essas questões.

Pesquisador que ‘morde’ também ‘Lattes’

Mas voltemos à questão mais específica das publicações. Espero já ter deixado razoavelmente claro que não sou contra o Lattes, muito menos as parcerias. Entendo a crítica de Leonardo quando ele diz que supervalorizei os aspectos negativos e negligenciei os positivos do currículo, mas, enfim, o texto (breve) era uma crítica aberta a esse sistema, por isso foquei especificamente nas aberrações. Mas estive muito longe de dizer que publicar e depois publicizar no Lattes é um ato deplorável: o problema, ao contrário, é viver disso e se vender exclusivamente a essa lógica; por isso, o título do texto é ‘pesquisador que SÓ Lattes’, e o ‘só’, neste caso, faz toda a diferença. Daí que, naturalmente, o que eu chamei de ‘pesquisador que morde’ não é aquele que não publica – esse seria um inútil para a academia, de tão ausente, como bem pontuado por Maria Amélia e Luciana Senra –, e sim o que se dedica com esmero às suas pesquisas e publica, antes, por ‘acreditar’ na potencial contribuição dos seus artigos ou livros, e não simplesmente para somar pontos ‘lattistas’, ou ‘lattesianos’, sei lá.

E voltando à crítica feita por Luciana, talvez realmente meu texto pareça um pouco simplista, generalista, mas desde o início o que tenho tentado evidenciar são os caminhos inescrupulosos que alguns acabam tomando para poder publicar sempre mais e mais. O foco da crítica é esse. É claro que a consequência natural do pesquisador é pesquisar e publicar – ir de encontro a isso seria no mínimo insano. O problema aqui abordado é apenas que o quanto acabou se sobrepondo absurdamente ao quê e ao como. Essa é a essência da aberração de que falo.

Concordo com Rafael e com Maria Amélia que a exigência formal no Brasil é pequena. Mas minha crítica aqui não é em relação ao mínimo: é em relação à disputa, à paranoia que se criou para se chegar sempre ao máximo possível (independente dos métodos utilizados para tanto). É bem o que Felipe falou quando se referiu à fragmentação e banalização das publicações. Por isso, realmente não acho que quem publica muito virou a ‘Geni’ da academia: na verdade, é mais provável que tenha virado ‘referência’. A verdadeira Geni, em minha opinião, deveriam ser esses ‘falsos cientistas’ que publicam muito (e) mal a que Felipe se referiu, assim como (ao contrário) quem não publica nada ou publica pouco e mal. Mais uma vez, o foco do debate aqui é qualidade, e não quantidade, o que de forma alguma quer dizer que quem publica pouco publica bem e quem publica muito publica mal – apesar de que os números muitas vezes nos dá uma pista razoável da possível qualidade do que está sendo produzido e publicado; afinal, sinceramente, será que dá para esperar muita coisa de uma pessoa que publica 30 ou 40 artigos por ano?

É por isso que discordo da crítica de LEM, apesar de entender parte dela. Primeiro, não acho que publicamos pouco na área de humanas (talvez seja melhor, mais uma vez, dizer que publicamos mal); segundo, pode até ser que os ‘estagnados’ se beneficiem do meu texto para justificar sua preguiça acadêmica, mas infelizmente isso é algo que foge do meu controle – é impossível prever e medir de antemão todos os efeitos das coisas que fazemos. Portanto, se isso estiver acontecendo, temos aí mais uma aberração. Em suma, não acho que precisamos publicar mais; ao contrário, talvez precisemos até publicar menos. O importante mesmo é publicar melhor; ou seja, trabalhar bem nossas produções antes e depois da sua publicação. Até porque, como disse o ‘segundo’ Leonardo, “não faz sentido fazer qualquer tipo de pesquisa se ela não tiver um objetivo e um caráter transformador”. Será que estamos realmente preocupados com isso quando fazemos nossas pesquisas?

Seguindo adiante. Apesar de concordar em parte com alguns dos contrapontos colocados por Rafael em relação à (grande) parcela de ‘culpa’ que atribuí ao capitalismo por essas ‘aberrações’ – como expus lá nos comentários –, continuo defendendo que tudo isso é, sim, derivado (senão inteiramente do capitalismo em si, já que algo parecido também devia ocorrer nos países não-capitalistas, mas pelo menos) da lógica capitalista. E quem me ajuda muito bem a reforçar essa ideia é Léo Yanco, quando diz: “Parece muito claro – e nisso concordo plenamente com o autor – que a produção de conhecimento sucumbiu à forma mercadoria em seus mais variados aspectos: imperativo da produção em série quantitativista, padronização, alienação (neste caso específico, especialismo, departamentalização, superficialidade etc.), submissão à lógica abstrata mercantil etc. O fim de tudo isso é que a produção de conhecimento hoje se tornou praticamente contraproducente, já que se pode dizer que se lê muito pouco do que se produz, pervertendo a proposta da publicação científica. Inevitável não lembrar das palavras de Max Horkheimer: ‘é como se o pensar mesmo tivesse se reduzido ao nível dos processos industriais, como tivesse se tornado em um componente fixo da produção’”.

O próprio caso da Elsevier, mencionado pór Sérgio Fuck Jr. e por Paulo Eduardo, ilustra bem essa ‘mercantilização do conhecimento’, que, como bem colocado por Márcio LM, através de Buarque, acaba fazendo deste conhecimento um mero ‘ornamento’. Eu, particularmente, só não sei se essa ‘ornamentação’, esse ‘saber pelo saber’ é um fenômeno mais brasileiro do que estrangeiro; na verdade, acho que tanto aqui quanto lá fora se trata de um mesmo caso que se expressa de maneiras distintas, diferenças geradas principalmente pela estrutura de quem controla o ‘mercado’ do conhecimento, seja o governo ou determinadas empresas.

Mas voltemos aos argumentos de Léo para reforçar as evidências contraditórias dessa lógica. Neste ponto, ele mostra muito bem (e Eduardo depois reforça, ilustrando com sua experiência e dificuldades pessoais) como o próprio sistema cria barreiras que só comprometem o mercado da ‘livre publicação’, o que muitas vezes acaba estimulando o surgimento das parcerias inescrupulosas que critiquei – algo parecido com o que acontece com as empresas que recorrem à sonegação fiscal para ‘compensar’ as barreiras impostas pelo Estado ao livre comércio. Além dos altos valores cobrados em vários congressos e alguns periódicos (como também exposto por Léo), outra grande barreira, no mercado acadêmico de ‘livre circulação de ideias’, é a exigência comum (principalmente em revistas) de uma titulação mínima (normalmente de ‘doutor’) para pelo menos um dos autores do artigo, o que, em minha opinião, traz mais malefícios do que benefícios, ao pré-julgar a qualidade de uma pesquisa pela ‘embalagem’ (a titulação do autor) antes mesmo de se ter acesso ao conteúdo – o próprio artigo. Recentemente até escrevi um e-mail a um congresso (que não aceitava artigos de mestrandos) criticando essa política e tentando mostrar o quanto ela é contraditória ao estimular que alguns titulados simplesmente assinem textos de outrem para ‘qualificá-lo’ para a publicação – o que sabemos que acontece com frequência. Enfim, neste caso, tive que ficar de fora do evento.

Por outro lado, crítico que ‘late’ é ‘mordido’

Neste último tópico vou partir do excelente comentário de Júlio Rique por resumir de maneira precisa os paradoxos dessa lógica que ele oportunamente chamou de ‘canibalismo acadêmico’. Realmente, essa é a essência da minha crítica – por mais exagerada e simplista que ela possa parecer para alguns –, que resulta na cadeia de acontecimentos muito bem colocada por Rique: se os ‘melhores’ (não desconsiderando toda a subjetividade do termo), os que possuem potencial para ‘morder’, não participam de algum modo dessa lógica, eles serão naturalmente ‘engolidos’ pelos que publicaram compulsivamente (por mais medíocres que possam ter sido essas publicações) ao longo de sua ‘carreira acadêmica’; isso fará com que esses que acreditam no que fazem e que têm vontade de melhorar o sistema sejam automaticamente excluídos deste; e é exatamente a cada vez que isso acontece que o sistema se mantém e se fortalece ainda mais. Um grande dilema: na verdade, um dilema bastante conhecido por aqueles que em qualquer situação e qualquer momento da história tentaram lutar contra a lógica vigente – “mudá-la de dentro para fora ou de fora para dentro?”; e aqui não é nem um pouco diferente.

Neste caso, gosto também da direção sugerida por Rique: “uma possível via de ação é atuar por dentro do sistema para termos acesso às chaves que podem desligar as partes do sistema que estão criando o circuito ou Catch 22”. Afinal de contas, de uma forma ou de outra, não é o que, em última instância, estamos tentando fazer aqui? Neste caso, como bem coloca Pedro Costa, será que não seria benéfico para nós, pesquisadores claramente descontentes com toda essa lógica inescrupulosa, “que esta aglutinação de mercenários incida numa busca sem causa dos que ‘não mordem’?” Ou seja, não seria aqui nessa brecha que os ‘bons pesquisadores’ deveriam aproveitar para mostrar seu verdadeiro valor? Sim, com certeza. Mas não é um caminho tão fácil de percorrer devido às inevitáveis contradições que vão aparecendo ao longo da caminhada. Primeiro, é preciso estar dentro da lógica, e para estar ‘lá dentro’, é preciso de alguma forma ceder em determinados casos. Segundo, o limiar entre ‘ceder’ e ‘se deixar levar’ é muito tênue, daí que é necessário que cada um que se engaje na luta para melhorar o sistema entenda seus próprios limites e esteja disposto também a passar por certos constrangimentos – inclusive o da própria contradição. Negar tudo é pueril (como bem sugeriu Paulo Eduardo), mas também aceitar tudo é conformismo cego.

E aproveito a crítica do próprio Paulo – assim como da Luciana – como gancho para dar um rumo final ao texto.  Eu realmente não sei qual seria a melhor forma de mudar esse sistema – se por meio de uma ‘revolução’ ou de um constante aperfeiçoamento interno –, no entanto, da mesma forma que o Paulo julgou a minha crítica ‘pueril’, também julgo a sua contracrítica um tanto precipitada ao rotular minha suposta ‘rebeldia’ e relacioná-la (negativamente) a atitudes de alguns partidos de esquerda (talvez pelas críticas que fiz ao capitalismo). Mas eu entendo o seu posicionamento. Compreendo as limitações do meu texto, principalmente por ter sido tão duro no diagnóstico mas pouco contribuir efetivamente (em termos pragmáticos) para a verdadeira mudança, como bem colocou Luciana. Até porque, convenhamos, grande parte da mudança passa por uma revolução ‘interna’ – ética e moral mesmo.

Portanto, não sou eu individualmente quem vai dar essas respostas e fazer qualquer tipo de síntese – em nenhum momento me propus a isso; na verdade, somos todos nós em conjunto que deveremos fazê-lo, tanto nos ‘transformando’ internamente (quando necessário) quanto pressionando o sistema para que este mude suas políticas que parecem inadequadas. Por isso, criticar é extremamente importante, e é, sem dúvida alguma, muito mais produtivo do que não criticar por achar que a crítica pela crítica não serve de nada. Vejam, por exemplo, quantas pessoas de alguma maneira já tinham se perguntado essas mesmas coisas e se incomodam com isso. E vejam quão produtivo foi o fato de eu ter externado minha ‘rebeldia’ para, assim, iniciarmos um debate construtivo em prol da melhora de uma lógica que – como o próprio Paulo assumiu – tem falhas.

Ou seja, não é o fato de o sistema estar posto há muito tempo ou de a discussão vir com ‘10 ou 15 anos de atraso’ que nos impede de querer mudar o que achamos que não está bom. Até porque, por mais ‘lentas, graduais e (in)seguras’ que sejam as mudanças, não é por si só que elas acontecem: muito pelo contrário, elas dependem exclusivamente das nossas ações. E, querendo ou não, discutir, criticar, expor as contradições, já é, sim, um tipo (por mais limitado que possa ser) de ação. É claro que – e nesse ponto eu concordo plenamente com Paulo e Luciana – muitas vezes esse discurso ‘durão’, altamente crítico, não passa de puro ‘blá-blá-blá’, já que em diversos casos ele não condiz minimamente com a prática daquele que o profere, o que se trata de mais uma aberração, um problema maior até do que ‘se vender’ e assumi-lo abertamente. É por isso, portanto, que tão importante quanto ser um ‘crítico chato’ é ser, ao mesmo tempo, chato com os críticos também. É isso que mantém o diálogo aberto e em constante aperfeiçoamento. E é isso que nos faz identificar sem muita dificuldade aquele crítico que late, late, late (desta vez, com apenas um ‘t’) e, em vez de ‘morder’, acaba mesmo é sendo mordido pelo sistema que ele tanto critica.

Ao que parece, não é o nosso caso aqui, e é por conta disso que o debate tem fluido tão bem, com contrapontos sempre oportunos e engajados na luta por uma melhora efetiva do sistema acadêmico como um todo. E como essa mudança também passa por nós mesmos individualmente, e mais, como somos seres humanos com nossas virtudes e contradições, tenho certeza que esse tipo de discussão também nos faz refletir no fundo da nossa intimidade as nossas próprias atitudes em relação a esse mesmo sistema, já que inegavelmente fazemos parte dele; e mais que isso: somos nós, em conjunto com muitos outros, que o compomos. Por isso, podemos até não ser culpados por suas falhas, mas isso não quer dizer em absoluto que não sejamos responsáveis por elas.

E aqui aproveito para me defender mais especificamente das críticas feitas por Luciana em relação ao meu currículo e minha (não-)contribuição à academia, ou ainda à possibilidade de eu mesmo ser um desses que late, late, late, e não morde. Primeiro, apesar de eu ainda ser um pesquisador ‘verdinho’, bem no início da carreira acadêmica, eu tenho plena consciência de que a minha produção formal é deve estar um pouco abaixo da média – a verdade é que tenho apenas produzido o mínimo sugerido pelo programa para fazer jus a ele e à minha bolsa. Segundo, seguindo essa lógica (praticamente instransponível), confesso que nem gosto tanto assim dos poucos artigos que publiquei – uma contradição apenas aparente. Mas isso quer dizer então que sou um pesquisador medíocre e que não sirvo para a academia? Pode até ser, mas acredito que não por isso. O fato é que estou fazendo meu mestrado dedicando toda a energia possível para a própria dissertação, o que naturalmente me afasta um pouco dos anais de congressos e das revistas. É uma opção minha, justamente por acreditar que um trabalho razoavelmente denso e conciso vale (no sentido que a palavra valor tem para mim) muito mais do que 10 ou 15 artigos publicados nos dois anos de mestrado.

E aqui não estou desqualificando quem faz o oposto do que eu faço: estou apenas justificando a minha escolha, algo que para mim faz muito sentido. É por isso que por enquanto eu realmente tenho só ‘latido’, mas acreditando que um dia poderei fazer um pouco mais que isso, quem sabe até aprendendo a ‘morder’. E um bom exemplo do meu ‘redirecionamento de energia’, do meu estabelecimento de foco, é o próprio blog. Há quase um ano tenho participado dele com os outros companheiros e tem sido uma experiência muito positiva, um ótimo espaço de discussão que tem, inclusive, me permitido amadurecer bastante minhas próprias ideias – ou ‘latidos’. Mas no início do mês anunciei que deixaria a equipe – este aqui, na verdade, seria meu último post – justamente para, passado o carnaval, me dedicar 100% à minha pesquisa esse ano. E faço isso porque acredito nela, porque espero mais à frente poder contribuir de alguma forma com minha área de pesquisa, por mais que agora eu esteja um tanto inerte em termos de produção (na verdade, de divulgação) imediata.

Por fim, por mais que não concordemos com as críticas colocadas aqui – ou que achemos tudo isso puro ‘blá-blá-blá’ ou ‘au-au-au’ que não conclui e não leva a nada –, a simples participação no debate já é uma ótima contribuição para todos, até mesmo para ajudar a mostrar que ninguém é dono da verdade. O que acaba sendo um grande problema é rejeitar as críticas, discordar a ponto de não aceitar a expressão do dissenso, e, por conta disso, ter ‘surtos psicóticos’ para desqualificar eventuais opositores, como no caso descrito por Matheus, conduzindo a discussão profissional a brigas pessoais. Ciência não é dogma. Na verdade, ao contrário, não existe lugar mais propício no mundo para se debater ideias do que a própria academia; e com certeza todos nós já temos maturidade suficiente para entender isso. Em suma, é pensando na grande importância do diálogo que mais uma vez deixo o texto aqui (e o espaço do blog) aberto para aprimorarmos cada vez mais o debate em prol de uma academia – e um mundo, claro – sempre melhor, latindo quando for necessário latir e mordendo quando for possível morder.



Posts relacionados



Um comentário para “Pesquisador que só ‘Lattes’ não ‘morde’ II – ampliando o debate”

  1. Marcos Dias Coelho disse:

    Não sei porque esse post não teve nehuma particpação. Mas acredito que este discurso conciliador e ponderado deve ter calado fundo(tanto no sentido de por em silêncio quanto naquele que ir fundo) todos os interlocutores!

    Parabéns pelos dois textos. Nem concordo nem discordo de vc, mas dentro de mim a guerra aumentou.

Deixe um comentário