Há algum tempo já desejava fazer um pequeno ensaio a respeito de eventos e congressos acadêmicos e internet. Admito que isso foge um pouco da premissa de Comunicação e Política do blog, mas segue o seu perfil mais acadêmico. E achei o exemplo da Compós perfeito para a discussão.
Então, acho impressionante como a oferta de acesso à internet para os participantes é desconsiderada na imensa maioria dos eventos acadêmicos. Tanto a internet quanto a questão de que boa parte dos pesquisadores agora utilizam notebooks, tablets ou até celulares para fazer suas apresentações. Ou seja, isso implica em duas questões simples (mas que se tornam complexas): tomadas e wifi. Quero enfatizar o segundo aspecto (por mais que tomadas costumem ser um dilema à parte).
Como dito acima, ainda me impressiona como os eventos, em geral, desconsideram a questão. E mesmo eventos que tenham como tema “internet, novas tecnologias e afins” não costumam estar bem preparados. Não há redes abertas. Os organizadores não informam a senha das redes fechadas. Isso, eu defendo, acarreta em dois problemas. O primeiro, mais óbvio, é a dificuldade de se resgatar qualquer arquivo online. Quantas vezes já não vimos um apresentador que gostaria de mostrar um vídeo no You Tube, uma imagem ou ainda um website que demonstra a sua teoria ou simplesmente um pendrive que não funcionou e toda a apresentação se perde (e o arquivo perfeito está no email). A segunda questão são os pesquisadores isolados do mundo. Não quero entrar nos méritos da discussão das pessoas hiperconectadas e seus malefícios. Mas a verdade é que já tive inúmeros problemas por isso. Aguardando um email importante ou mesmo precisando enviar uma mensagem vital. E você completamente isolado do mundo, mesmo portando seu notebook. Não consigo contar o número de vezes que pedi “secretamente” a senha do wifi para a organização, para algum aluno ou professor, porque havia algo importante a responder (ou, admito, pelo vício diário).
Além disso, posso apontar uma terceira perda (apesar de não um problema): o desperdício de potencial das redes digitais. Explico. Antigamente, era quase impossível ter acesso aos anais de eventos. Precisavam ser impressos e eram complexos de serem encontrados e serem enviados. Com a internet, já há o ganho dos artigos estarem online. Todavia, ainda assim o indivíduo não tem acesso às discussões ocorridas. Aqui há duas possibilidades. Idealmente, a transmissão ao vivo por live-streaming permitiria que as pessoas acompanhassem tudo à distância. Agora, uma outra possibilidade é dar a chance aos pesquisadores de realizar a “cobertura”. Mesmo que não seja oficial, ela abre muitas possibilidades, como comentários e análises a respeito da discussão e dos próprios artigos. Podendo falar o óbvio, essa discussão pode ser amplificada pelas redes sociais. E os interessados, no mínimo, poderão visualizar tais discussões e até mesmo interagir com elas. Potenciais indivíduos interessados na discussão (e nos artigos) podem ser informados a respeito pelas mesmas ferramentas digitais que já utilizam diariamente (Twitter e Facebook em destaque, eu diria).
Se há diversos benefícios, por que a internet costuma ser desconsiderada em tais encontros? É difícil avaliar, mas posso citar alguns desafios: 1) esquecimento. Pode parecer banal, mas um evento demanda a organização de tantas questões que o wifi para os participantes pode simplesmente ser esquecido; 2) dificuldade burocrática: conseguir um ponto de acesso pode demandar muita burocracia. Geralmente, os organizadores não podem fazer por conta própria, necessitando contatar um setor de informática, que por sua vez precisa de vários relatórios e justificativas para liberar tal conexão. 3) dificuldade técnica: nem sempre é fácil conseguir uma rede que possa abarcar 200-500 pessoas utilizando a rede ativamente sem problemas. Além disso, a depender do local do evento, os participantes podem estar divididos em pontos muito distantes, o que pode exigir mais pontos de roteadores, o que pode esbarrar novamente na questão burocrática e, nesse caso, até no financeiro.
Assim, enfatizo o exemplo da Compós 2011. A organização do evento teve uma grande preocupação em permitir o acesso dos participantes. Em cada corredor e em cada sala de Grupo de Trabalho, havia um cartaz informando o login e a senha para se acessar a internet. Aproveitando para indicar o perfil oficial do evento (@compos2011), e as hashtags sugeridas para a cobertura coletiva, o que tratarei em futuro ensaio. Essa preocupação, como eu disse, pode soar pequena, mas é um diferencial, um exemplo a ser seguido por outros eventos. Por sinal, confesso que escrevi o texto à noite, mas publico online da Compós, usando a wifi tão inteligentemente cedida pela organização.